Na Trilha dos
Menestréis
(do livro Contos da Alma, de Alma Welt)
Montei
meu ateliê nesta cidade antiga de Olinda, no nordeste brasileiro. Sendo uma
pintora sulista, tudo aqui me fascina e atrai, mas, sobretudo sua mistura de
culturas, onde até mesmo se ouvem ecos esparsos do colonisador holandês.
Por falar nisso, acabo de ver uma cena digna de um quadro
alegórico de Pieter Bruegel. Hoje é o dia do serra-velho, tradição picaresca da
cidade, que pode, na verdade, remontar a Idade Média ibérica. Alguns jovens
reúnem-se com tábuas, serrotes, martelos, pregos e alguns cavaletes. Postam-se,
de manhã cedo, diante da casa do homem mais velho da cidade e começam a
construir um caixão de defunto. Serram e martelam gritando da rua para dentro
da porta ou janela da casa: “Ô velho, diga aí pra quem você vai deixar a sua
casa! E a cama, velho? O cofre, pra quem vai ficar?”... e roc, roc, roc, pá pá
pá! Serram e martelam até o caixão ficar pronto.
Invariavelmente... e tradicionalmente, o velho leva a mal a
brincadeira, e sai pela porta com um porrete, furioso, afugentando os gaiatos
que voltam, assim que o velho reentra em sua casa. Às vezes, o velho, como
desta vez, destrói a porretadas o caixão, logo reconstruído pelos jovens, cuja
brincadeira dura até o meio-dia.
Chego, então, da rua, com essa impressão carnavalizada da
morte e entro no sobrado colonial que me foi cedido pelo meu marchand para que
produza uma série de telas de sua encomenda sobre temas da cidade. É nesse
momento que sou envolvida pela voz da mucama contratada por sua mulher, Fiora,
minha amiga, para ajudá-la a cuidar de seu bebê. A cabocla da região do agreste
pernambucano, ex-catadora de tomates nas fazendas de Pesqueira, canta com
impressionante voz rude, tosca, bem camponesa, com excelente afinação, o Boi da
Cara Preta, antiga canção de ninar comum também no sul, mas com enorme
diferença na melodia. Trata-se nitidamente de um modo medieval:
No meio da canção entra uma estrofe desconhecida no sul, que
fala de um inusitado pavão (xô pavão, sai de cima do telhado, deixa o menino
dormir seu soninho sossegado).
Esses versos, com sua melodia castelã, batem-me na alma,
encontrando estranhas ressonâncias arcaicas no meu ser. Fico ali, a uma certa
distância, observando a bela cena de acalanto, sem ousar aproximar-me para não
interromper a canção ou perturbar o sono do bebê.
Mais tarde vou ter com a mucama, que se chama Anunciada, na
cozinha, para conhecê-la melhor, quase como para entrevistá-la, na verdade.
Ela me fala de sua infância no Agreste pernambucano, deixando
entrever seus costumes. Quando alguns mitos menores se insinuam, aproveito para
perguntar sobre o pavão misterioso da canção. Anunciada diz nada saber sobre
essa figura, que por razões obscuras apenas lhe metia medo na infância, mas
lembra que na adolescência ouvira outra alusão a ave, num repente de desafio
entre dois cantadores violeiros do sertão.
Isto me deixou ainda mais curiosa sobre esta estranha
entidade insólita numa cultura em que aparentemente ela não devia estar, como
ave oriental inexistente no plano real deste Brasil rústico do sertão. Se se
tratasse de uma seriema, um bacurau, até mesmo um carcará, seria menos
enigmático. Mas um pavão com aquela cauda luxuriosa, repleta de olhos sobre uma
criança em seu berço...
Não consegui mais dados sobre o assunto, mas isso deixou-me
mais intrigada ainda e Anunciada, percebendo isso, disse-me: “Dona Alma, vou
pedir ao meu irmão Josué que a procure. Ele vai brevemente ao sertão com a sua
caminhonete para levar cantadores até a Paraíba, para um tal de Festival. Se a
senhora quiser, ele a leva também. Quem sabe a senhora descubra sobre o pavão,
já que isso parece importante, não entendo por quê.”
Fiquei tremendamente excitada, comecei mesmo a dar pulos,
para surpresa da mucama. Fazia planos com uma velocidade incrível em minha
cabeça, quase corri a arrumar um saco de viagem. Logo toquei-me que eu ainda
nem conhecia o Josué e ele também não me convidara, ainda, para a viagem. Mas
eu sabia que isso não seria problema, em último recurso eu proporia dividir as
despesas, a gasolina etc...
Naquela noite, tive um maravilhoso sonho com o sertão mítico
da alma, lugar indefinido onde pairava o pavão com suas asas abertas e a cauda
como um céu estrelado sobre um berço voador, onde eu estava de pé com minha
imagem atual mas em miniatura, contando as estrelas-olhos, ao som do acalanto
medieval não cantado, mas tocado em rabecas e flautas por músicos sem rosto que
me rodeavam dentro do próprio berço flutuante.
De manhã bem cedo, acordei com Fiora e o pequeno Mateus em
cima de mim. Ela com risos e perguntas, enquanto fazia o bebê montar em meu
ventre, queria saber que estória era essa da viagem do pavão misterioso, o que
é que eu ia aprontar agora, deixando-a sozinha para aventurar-me, como sempre,
como uma louca, patati patata...
Antes que eu respondesse qualquer coisa, adiantou-me que o
Josué se encontrava lá embaixo na cozinha, tomando café e esperando para falar
comigo.
Pulei
da cama rodopiando com o Mateus, cantarolando: “chô, pavão”... e com ele no colo desci até a
cozinha para falar com Josué.
Era um belo rapaz de tipo sertanejo, mais claro que
Anunciada, com um olhar forte e seguro, que olhou-me penetrantemente mas, ao
mesmo tempo, com respeito, eu percebi. Parecia querer medir com o olhar a minha
determinação onde quer que ela se encontrasse na minha pessoa física, foi o que
pensei.
Combinamos o horário da saída e tudo o mais, mas ele não
queria saber de eu dividir despesas. Ficaria ofendido. Dizia que eu era sua
hóspede, desde já, nesta jornada em que posaríamos por uma noite, pelo menos,
em sua casa no agreste, antes de tomarmos a trilha do sertão. Ele dizia que sua
família ficaria honrada com isso, mas eu já suspeitava que a honra seria minha,
percebendo um toque de fidalguia nas maneiras simples do rapaz.
À hora combinada, despedi-me de Fiora, do pequeno Mateus no
colo de Anunciada, que também recebeu um beijo que a deixou emocionada. Fiora
agarrava minhas mãos, não querendo deixar-me ir. Entrei na caminhonete ao lado
do motorista, que era o Josué. E partimos à aventura.
Nossa primeira parada, ainda em Olinda, foi numa pequena casa
na praia, para recolher dois cantadores, um deles cego, os primeiros de uma
lista de mestres que devíamos coletar e conduzir rumo ao sertão com destino à
Campina Grande, na Paraíba, onde se daria um grande encontro de cantadores e
repentistas de todo o nordeste.
Seguimos alegremente após os cumprimentos em que um deles
descreveu-me para o outro, o cego, de maneira altamente lisonjeira, dizendo:
“Mas é uma princesa, Severiano! Tal e qual! Tem de ver! O cabelo dela é de
ouro! E os olhos verdes, de botar fogo no espinheiro da caatinga!”...
O cego tirou um acorde sugestivo da viola, sorriu e nada
disse.
Ao anoitecer chegamos a uma usina de açúcar já na região do
agreste pernambucano, onde assistiríamos o duelo de dois repentistas que depois
se juntariam a nós para seguirmos adiante na nossa trilha programada. A peleja
foi antológica. O cego Severiano e seu companheiro receberam homenagens e
juntaram-se ao duelo, formando duplas. O povo da usina assistia empolgado,
sentado sob um telheiro, em bancos enfileirados, fixos, próprios para esse fim.
Percebi que aquilo era o cinema, o teatro, o concerto, enfim, todo o
entretenimento daquele povo. Por isso mesmo, mais surpresa e honrada fiquei
quando o cego Severiano, iniciando o desafio da dupla, dedicou-a em homenagem à
princesa-pintora do sul, cujo cabelo de ouro tinha aberto sete guerras no
sertão, e cujos olhos verdes fizeram um filho de coronel enforcar-se numa
jaqueira depois de duelar à faca com um rival que fugira numa máquina voadora
com formato de um pavão.
Arrepiei-me ouvindo a alusão ao pavão misterioso que eu
buscava.
Josué olhava-me muito com aquele olhar que eu ainda não
aprendera a desvendar.
Após a peleja dos violeiros seguimos, agora, com mais dois
viajantes.
No caminho, a confraternização e a alegria eram cativantes,
apenas Josué mantinha-se calado o tempo todo. Atravessávamos, agora, a
fronteira do agreste e penetrávamos no sertão de Pernambuco, transição que
percebi por uma gradativa aridez na paisagem. O verde ia nos abandonando,
quando Josué tomou coragem de fazer um galanteio, rompendo seu silêncio para
dizer que o verde nos acompanhava sempre, pois levávamos meus olhos conosco em
nosso carro. Houve uma exclamação unânime, seguida de uma gargalhada geral de
aprovação jocosa.
Lá pela hora do jantar, chegamos a uma casa na borda do
sertão, que era a do pai de Josué e Anunciada, apenas dois dos nove filhos do
velho sertanejo. Seu Malaquias recebeu-nos com grande alegria. O velho
patriarca abraçou-nos a todos, mas percebi nele uma especial comoção ao abraçar
um dos velhos cantadores que ele chamou de compadre. Quanto a mim, apresentada
por Josué, pousou-me os velhos olhos e disse: “Josué, você raptou uma princesa,
Josué!... O rei vai mandar seus cavaleiros! Vão dirrubá os muros da minha casa,
Josué!”
Ao jantar, na grande mesa, que me surpreendeu, o Seu
Malaquias sentou-se à cabeceira, Josué e eu de cada lado, próximos a ele, os cantadores
e os outros filhos distribuídos dos dois lados e o seu compadre na outra ponta.
O velho levantou um brinde a todos e um especial ao seu compadre, o cantador
Ezequiel, dizendo: “Esse homem é meu pai, é meu filho, é meu irmão! Brindo a
você, compadre Ezequiel, pelas nossas guerras, pelas nossas vitórias e pelas
nossas derrotas, que são o mesmo!”
Fiquei imensamente curiosa para saber dessas “guerras”. Mais
tarde ele contaria alguns episódios, pois o velho era um contador de estórias
nato. Antes, ele faria um brinde à sua nova hóspede, que a modéstia não me
permite aqui reproduzir.
Após o jantar, todos reunidos em torno do patriarca, este
começou a relatar: “Nóis estava, Ezequiel e eu, e mais dois ou treis, no
milharal do coroné Asclépio. Nóis tinha de passar a noite de guarda. A divisa
tinha sido dirrubada deiz veiz. Aquele pedaço de terra já matava há treis
geração. Arami vai, arami vorta. Mourão aqui, mourão ali, e tome tiro, haja
cadavre! Eu num via a hora de vortá pra família, mas, home, no sertão só tem
valia na hora e no lugar do vamovê. Eu tinha deixado a Diviges embuchada e c’os
menino tudo catarrento esperando o feijão e a rapadura. Aí a primeira bala
zuniu fininho qui nem marimbondo na minha oreia. Daí há poco, o milharal
estralava qui nem fogo no espinheiro. Era bala de cá e de lá. Óio pro lado e
vejo o Dijaniro agarrado, duro, no pé de milho. Custei pra entendê qui ele já
num tava ali. Seu corpo foi tombando divagarinho, divagarinho, agarrado no pé
de milho, de ôio aberto, as mão qui nem em oração com um vela que era a espiga.
E tombô teso, levantando aquela poeirinha qui só eu vi. Então, senti o
marimbondo me ferroá na coxa, qui nem ferro em brasa. Ajoelhei sem aproveitá
pra rezá. Ezequiel tava ali na hora e me arrastô por aquele milharal afora
tingido de sangue num rastro logo siguido pelos inimigo. Cum facão na mão abria
caminho pra gente avistá o curral da fazenda, enquanto cuma força de anjo me
amparava co braço isquerdo por debaixo dos meus sovaco. Acabô mi pondo nas
costas e atravessô cumigo o curral e chegamo no chiquero, atolado até as
canela. Eu num largara a minha espingarda e afinal ficamo respondendo fogo atrás dum capão
enorme qui amortecia as bala na gordura, grunhindo de dá dó. Inté o amanhecê
ficamo cercado no chiqueiro atolado no barro, na bosta e no sangue até os
jagunço do coroné Asclépio expulsá os dos coroné Ludugero. Saímo mais preto que
uns demônio, no meio das gargaiada da jagunçada. Fiquei mancando dessa perna
inté hoje, mas o Ezequiel aqui tinha di sê o padrinho da Eleusuína, qui nasceu
naquela noite”.
Ficamos ouvindo estórias até tarde, quando todos, cansados,
fomos armando nossas redes pelas pilastras da casa. Temi não conseguir
conciliar o sono numa rede, não estou acostumada, mas exausta praticamente
desmaiei. Não sei quanto tempo se passou, mas lá pelo começo da madrugada senti
uns olhos fixos sobre a minha rede e como num sonho ou delírio tentei falar,
sem ouvir minha própria voz. O par de olhos aproximou-se como uma coruja e
senti meus lábios quentes, pressionados, sem resistência. A seguir, tudo se
apagou.
De manhã bem cedo, acordei moída e com dificuldade de sair da
rede. Apesar disso, minha disposição anímica estava alta e, levantando, as
dores de desvaneceram. Entretanto, uma sensação estranha persistia, lembrando-me
dos olhos da coruja. Eu tinha um formigamento nos lábios, mas tomando um café
bem quente estava pronta para retomar a viagem, sem pensar mais nas estranhas
sensações da noite.
Os mestres cantadores tangiam suas violas como para se
exercitarem. Fizeram-me umas pequenas demonstrações de afinações e batidas,
como galope, martelo agalopado, ponteio, toada, parcela, côco etc. Eu ouvia
fascinada, mas sentia que os olhos da coruja pairavam sobre mim quanto mais
encantada eu me mostrava. Ou seriam, talvez, os olhos do pavão misterioso? Essa
idéia me produziu um arrepio.
Despedimo-nos de Seu Malaquias e da família toda. Olhei bem
aqueles rostos para impregná-los na alma. Belos olhos puros, que não tinham
parado de me olhar um só minuto, moços, moças e meninas, que não abriram a
boca, mas que me deram seus olhares generosamente, ingenuamente.
Aboletamo-nos, afinal,
na caminhonete, naquela confusão de violas e sacos de viagem e partimos
levantando a poeira que encobriu a visão daquela casa e daquela família hospitaleira
que deixávamos para trás. Josué continuava mais calado que nunca, e eu, de
repente, já não confiava mais nele. Ele sentiu isso e mostrou-se inquieto, uma
estranha febre queimava-lhe o olhar. Dirigia numa velocidade um pouco
excessiva, mas como a região era praticamente deserta os violeiros não notavam.
Afinal, depois de horas de viagem, paramos para descansar e para “tirar água do
joelho”, como diziam. Estávamos numa planura sem fim e sem abrigo, uma caatinga
áspera e espinhenta. O sol castigava sem dó. Os violeiros afastaram-se para
urinar, recomendando à moça, que era eu, que virasse as costas, enquanto eu me
agachava atrás da perua para fazer xixi. Josué não saiu do seu assento, na
direção, com o olhar fixo na planura em frente. Parecia ter alguma idéia em
mente. Voltamos aos nossos assentos e continuamos a viagem desabalada por
aquele sertão bruto, que agora quase me amedrontava.
Mais algumas horas e chegamos a uma vila miserável,
minúscula, de uma só rua. Mulheres enrugadas pelo sol, crestadas e gastas
olhavam-nos pelas poucas janelas sem saírem de casa. No meio daquela rua,
estranhamente, brotava uma enorme jaqueira, única sombra convidativa. Nossos
viajantes acomodaram-se sob a árvore, enquanto Josué pedia água junto à janela
de uma casa. Foi-lhe passada uma moringa e uma caneca de folha e após matarmos
a sede os violeiros começaram a tanger suas violas.
Aos primeiros acordes, ainda na afinação, a rua se encheu
miraculosamente. Aquele povo tinha sede das violas e dos versos daqueles
mestres. Fiquei ali no meio deles, mas bem perto do cego Severiano, que começou
uma toada de menestrel e, com sua voz rude e antiga que me arrepiava, começou a
cantar:
Um outro Pavão Misterioso
(cordel de Guilherme de Faria)
(cordel de Guilherme de Faria)
1
Ouç’ agora minha gente
uma estória de chorar.
Não verá mais comovente
o povo deste lugar.
uma estória de chorar.
Não verá mais comovente
o povo deste lugar.
2
Foi no começo do reino
desta terra do sertão.
Uma moça tão bonita
que igual se viu mais não.
desta terra do sertão.
Uma moça tão bonita
que igual se viu mais não.
3
Não era princesa de sorte
mas era de condição.
Por ela comanda a Morte
sete guerras no sertão.
mas era de condição.
Por ela comanda a Morte
sete guerras no sertão.
4
Morreu gado, morreu gente
fazenda mudou de mão.
Mudou o rumo do mundo
só o seu não mudou não.
fazenda mudou de mão.
Mudou o rumo do mundo
só o seu não mudou não.
5
Essa moça tão formosa
vivia pro coração.
Já estava tão famosa
que produzia canção
vivia pro coração.
Já estava tão famosa
que produzia canção
6
Seu pai era um rei da terra
De couraça de gibão
homem afeito à guerra
mas no fundo um home bão
De couraça de gibão
homem afeito à guerra
mas no fundo um home bão
7
Pra sua filha doçura
palácio de maravilha
montanha de rapadura
açude de groselhão.
Pra sua filha doçura
palácio de maravilha
montanha de rapadura
açude de groselhão.
8
Não adiantou a ternura
Não muda o querer da gente
o fado ruim do vivente
malgrado sua sinecura
Não muda o querer da gente
o fado ruim do vivente
malgrado sua sinecura
9
Estava escrito que Creusa
esse o nome da princesa,
conquanto fosse uma deusa
fadada a muita tristeza
esse o nome da princesa,
conquanto fosse uma deusa
fadada a muita tristeza
10
por conta de um moço pobre
Esse engenhoso José
Embora engenho lhe sobre
competindo estava a pé
Esse engenhoso José
Embora engenho lhe sobre
competindo estava a pé
11
c’o filho do coronel
que vivia arrodeando
a princesa cobiçando
feito uma mosca no mel
que vivia arrodeando
a princesa cobiçando
feito uma mosca no mel
12
Então fez um avejão
todo de ferro e de aço
com o tipo de um pavão
movido à força e cansaço.
todo de ferro e de aço
com o tipo de um pavão
movido à força e cansaço.
13
E com esse estratagema
por cima deste sertão
com aqueles olhos de gema
linda cauda do pavão
por cima deste sertão
com aqueles olhos de gema
linda cauda do pavão
14
O povo vendo voar
aquele estranho avejão
acreditava chegar
a redenção do sertão.
aquele estranho avejão
acreditava chegar
a redenção do sertão.
15
Recuperada seria a Fé
sem aquela punição
do dilúvio de Noé
em arca de embarcação
sem aquela punição
do dilúvio de Noé
em arca de embarcação
16
Sem a rola e o corvo
sem casal de hienas risonhas
que são do leão estorvo
naquelas disputas medonhas
sem casal de hienas risonhas
que são do leão estorvo
naquelas disputas medonhas
17
O verde que ia voltar
traria o prazer da vida
pro povo daquele lugar.
com muita água e comida.
traria o prazer da vida
pro povo daquele lugar.
com muita água e comida.
18
Mas, ai, que a sorte fatal
não deixa um gosto vingar.
Já se armara o seu rival
com canhão de militar,
não deixa um gosto vingar.
Já se armara o seu rival
com canhão de militar,
19
ao saber que o moço, a bela
já lhe tinha raptado
por expresso gosto dela
que se tinha apaixonado.
já lhe tinha raptado
por expresso gosto dela
que se tinha apaixonado.
20
Voavam pois abraçado
por cima desta caatinga
quando fogo cerrado
partiu da seca restinga
por cima desta caatinga
quando fogo cerrado
partiu da seca restinga
21
formando nuvem vermelha
em volta do avejão
que já voava de esguelha
Com nostalgia de chão
em volta do avejão
que já voava de esguelha
Com nostalgia de chão
22
Tentou lupim e parafuso
os recursos de avião
mas nessa teia o fuso
o fado é que tem na mão.
os recursos de avião
mas nessa teia o fuso
o fado é que tem na mão.
23
Caiu por terra o casal.
Caiu por terra o pavão.
Caiu pra sempre o ideal
de haver chuva no sertão.
Caiu por terra o pavão.
Caiu pra sempre o ideal
de haver chuva no sertão.
FIM
Saímos daquela aldeia ovacionados, se posso dizer assim. As
crianças me rodeavam querendo tocar-me, segurando-me as mãos, e escoltando até
o carro. Uma menina tinha lágrimas nos olhos, olhando para mim, mas eu não
atinava o por quê. Talvez minha figura ecoasse alguma coisa dentro daquelas
crianças, não sei...
Tocamos, sertão a dentro, aprofundando-nos numa caatinga
pardacenta, dura como o destino daquela gente. Aqui e ali um carcará parecia
nos acompanhar. Caveiras de boi jaziam na beira da estrada e umas cruzes se
viam vez por outra como sinistros sinais de mortes violentas. Tocaias, talvez?
Antigos duelos, que sei eu...
Ezequiel começou a contar a estória do seu irmão, o tropeiro
Salustiano que, moço ainda, atravessara aquela chapada com uma tropa de mulas
que esperava vender na Feira de Santana. Encontrara no meio da caatinga um
homem estranho que a atravessava a pé, vestido com um camisolão, e com um
cajado tangendo um rebanho invisível. O homem, nem velho nem moço, mas com
olhos encovados, pediu-lhe água. Salustiano, moço destemido e puro, estranhou o
aspecto daquele homem, mas pensou ser um louco de Deus, coisa não muito rara
naquele sertão. O homem recebeu de Salustiano uma caneca com água que havia num
odre pendurado em sua montaria. O viajante, olhando-o nos olhos, derramou
lentamente a água toda no solo seco a seus pés. A terra dura engoliu a água sem
deixar vestígios. Salustiano deu um pulo para trás, gritou “Afe! Óxente!” e
esporeando a mula deu as costas ao peregrino e partiu indignado.
Muito mais adiante, encontrou um menino que lhe pediu água e
repetiu o gesto do peregrino. Salustiano mais indignado ainda jurou não querer
mais nada com aquele povo doido. Até que mais na frente, lá pelo meio da
planura, onde o sol bate de rijo e de chofre, feito a bigorna da forja do Demo,
inusitadamente avistou ao longe um vulto diferente. Com a mão em aba sobre os
olhos, esperou o vulto aproximar-se, definindo uma moça de surpreendente
beleza, sertaneja, mas nada ressecada pelo sol, pois suas lágrimas corriam
abundantemente como as águas da paixão. Passou por ele como se não o visse,
enquanto Salustiano, fazendo o sinal da cruz, deu um grito de aboio agoniado,
que fez disparar as mulas deserto adentro. O sertão tem muita coisa...
Após a narrativa de Ezequiel, seguimos em silêncio mais um
longo trecho. Afinal chegamos a uma casinha no plaino abandonado, sozinha no
meio daquela vastidão, brotando do solo árido como um cogumelo no estrume seco
do gado. Íamos encontrar mais um cantador, afamado, homem jovem ainda chamado
Pagano, estranho como um cigano que só vivia para sua viola e sabia todas as
toadas sem ter tido mestre. De onde viera ele, ninguém sabia. Mas este virtuose
do sertão já tinha uma lenda meio sinistra no meio do povo. Dizia-se que tinha
vendido a alma, mas que como bom cigano não a tinha entregue, ganhando tempo a
cada cantoria, enquanto não perdesse uma. Tinha desafiado a todos, só
respeitava o cego Severiano, intocado em sua majestade herdada de outro rapsodo
cego, o grande Aderaldo.
Parecendo temer que eu me fascinasse com o cigano, Josué
chamou-me de lado e disse ter se enganado de itinerário. Os outros violeiros
discutiam e cobravam de Josué o engano, dizendo que o desvio nos atrasaria em
dois dias pelo menos.
Então Josué pegou-me pela mão enquanto os cantadores se
acaloravam e levou-me até o carro onde, abrindo o porta-malas, retirou o seu
saco de viagem de onde, surpreendentemente, tirou duas vestimentas completas de
couro, gibões, perneiras, chapéus e tudo, armaduras de vaqueiro, maravilhosas
em suas complicadas costuras ornamentais.
Praticamente ordenou-me
que vestisse uma que me serviu perfeitamente sobre as minhas roupas, enquanto
ele vestia a sua. Então, dirigindo-se por fora ao fundo da casa, confabulou com
o cigano e voltou com duas montarias, toscos cavalos selados, que montamos
logo, partindo a galope no meio da caatinga áspera. Atravessamos uma zona de
espinheiro parecida com o inferno. Percebi, então, a utilidade daquela
armadura. Abaixando a cabeça quase deitada sobre o pescoço do meu cavalo, o
chapéu amarrado ao queixo por tiras de couro, como pequeno cone arredondado
abria caminho entre as garras dos espinhos. Chegamos a uma zona de grandes
pedras ameaçadoras, que circundavam um grotão insuspeitado. Josué parecia
conhecer perfeitamente o terreno e, apeando, prendeu nossas rédeas numa fenda
de rocha e agarrando-me imperiosamente pela cintura apeou-me também,
conduzindo-me pela mão, por uma trilha pedregosa como um caminho de rato que
descia ao fundo da grota. Eu estava excitada, ligeiramente temerosa.
No fundo do grotão, meio camuflada por plantas espinhosas,
estava a grande carcaça semi-destruída de uma nave ou coisa parecida.
Examinando-a mais atentamente, quando minha vista se acostumou ao seu mimetismo
na paisagem, compreendi suas formas estranhas parecidas com as de uma grande
ave. Uma barca com asas, que tivesse na proa a cabeça de um pavão e na popa um
arremedo de cauda, onde ainda se viam descorados a miríade de olhos
esverdeados. No bordo dianteiro, muito gasto, o estranho nome da nave:
“Ananke”, adivinhei, completando as letras que faltavam. Olhei Josué nos olhos,
e ele estava delirante. Olhava-me ardentemente e, estendendo os braços para o
ar, disse: “Alma, esse sertão é seu! Vou lhe dar esse sertão que você verá
inteiro, de cima, num vôo sem fim. Vou reconstruir a nave. Diga-me uma palavra
e eu a reconstruo. Voaremos sobre esta terra, faremos soar as trombetas do
pavão e os muros da água cairão ao seu comando. Não haverá mais seca, e a terra
reverdecerá pelos seus olhos, por onde voejarmos, princesa do sertão! Mas você
tem que dizer a palavra, você tem que querer!”
Tive um súbito medo, afastei-me de Josué correndo, subindo a
trilha, escorregando, caindo várias vezes. Peguei minha montaria e disparei
pela caatinga. De repente estava no meio do espinheiro, perdida, não sabia
atravessá-lo sozinha. Fui agarrada pelos espinhos, que me desmontaram
arremessando-me ao solo poeirento, ensangüentada e em lágrimas. Protegia meu
rosto coberto de poeira e de sangue das minhas mãos e fiquei ali, soluçando
desamparada. Josué gritava o meu nome no meio do espinheiro e, afinal, chegou
junto de mim, apeou, curvou-se e desvirou-me, emborcada que estava naquele solo
cruel. Abraçou-me dizendo: “Não, Alma, nada tema. Você não chegou aqui por
acaso. Eu já lhe esperava há muito. Você tem de saber. A nave já a carregou uma
vez, há muito tempo. Esse sertão já foi seu, mas você não quer se lembrar.
Entregue-se a mim e ao pavão. Você será feliz, de uma felicidade esquecida, que
agora você ainda não pode compreender...”
Enquanto ele assim falava, seu espinho penetrou-me, cercada
que estava de mil pequenas pontas afiadas daquela terra mágica, e desmaiei de
prazer e dores em seus braços.
FIM

Convido os amigos a conhecerem o conto que é a chave para o entendimento de onde o universo da Alma Welt se encontra com o do cordelista sertanejo Guilherme de Faria...
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